Zeca Camargo faz essa pergunta ao público, veja matéria abaixo:
Quantas vezes você viu o trailer de “Piratas do Caribe 3 – No fim do mundo”? Eu vi três. No cinema. E mais três na internet. Eu já vi o redemoinho prestes a engolir os navios. Já vi uma nau descomunal navegando por dunas de areia – cruzando geleiras, se aproximando de uma enorme cachoeira (isso é o que eu chamo de “variar sobre um tema”…). Vi duas ou três piadas de Jack Sparrow – as faladas (para fazer justiça aos símios do elenco, uma delas envolve um macaco) e as acrobáticas (como aquela em que o canhão que ele detona acaba o içando com violência pelos ares). Vi a luta (emocionante!) sobre uma das velas rotas. Vi bons closes de Keira Knightley e de Orlando Bloom, matei saudades da incrível maquiagem de Bill Nighy, no papel do temível Davy Jones. E li blogs e jornais o suficiente para saber qual é a… bem… a trama dessa terceira parte da trilogia. Dito isso, pergunto: preciso assistir ao filme?
Se você é um dos devotos do capitão Sparrow, provavelmente abandonou este texto à deriva no último parágrafo. “Que espécie de pergunta é essa?”, provavelmente se perguntou esse fã. Sob pena de ir para prancha, ouso aqui expor minhas razões para duvidar das sensações que esse tipo de filme pode oferecer. Tipo de filme – esclareço logo – que adoro. O que vem a seguir não é uma consideração esnobe de um crítico de cinema – quem vem sempre aqui sabe que não dou para nenhuma dessas coisas, nem esnobe, nem crítico de cinema.
Ocorre que, no lugar de “Piratas do Caribe 3″, fui assistir, na semana passada, a um filme que não tem nada a ver com esse universo – uma produção tão alternativa que me surpreendeu até ser lançada comercialmente no Brasil. Leitores distantes das capitais (e vocês são muitos, eu sei, pelos comentários) provavelmente não vão ter a oportunidade de vê-lo nas telas de sua cidade (quem sabe em DVD?), e mesmo quem mora perto de um cineplex nem deve estar sabendo que ele estreou.
Eu mesmo só fui vê-lo porque li numa manchete que esse era o novo filme de Mira Nair – uma diretora que admiro (mais dela adiante) -, pois o que poderia me chamar atenção (o nome original do filme), recebeu uma tradução estranha para mim. Explico: o roteiro foi adaptado de um livro que li há dois anos e que gostei muito, “The namesake” – no Brasil, “O xará”. Sua autora, Jhumpa Lahiri, é uma das sensações literárias da nova geração de autores com herança indiana (ela é nascida na Inglaterra) – uma turma que, como eu não me canso de falar aqui, me é muito cara… O livro é realmente muito bom (a edição nacional, da Companhia das Letras, é de 2003, mas você consegue achar sem muita dificuldade), e com um nome fácil de lembrar… Só que os distribuidores brasileiros, negligenciando o potencial que os fãs de Lahiri poderiam representar às bilheterias (será?), resolveram rebatizá-lo de “Nome de família”.
Não deixa de ser uma ironia esse título, já que o nome em questão – o do personagem principal – não é o da família, mas o próprio. Um menino, de quem vamos acompanhar a história da infância até a juventude, é batizado provisoriamente (coisas de “bengali”, como eles diriam) de Gogol – numa referência “torta” ao grande escritor russo (nascido na Ucrânia) Nikolai Gogol – e passa o resto da vida “brigando” com seu nome. Mas esses são detalhes: a história mesmo é uma bela fábula sobre o choque de culturas. Resumindo (mas resumindo bem mesmo), Gogol nasce em Nova York, de pais indianos, abraça a cultura americana, e só quando uma tragédia pessoal atravessa sua vida (não se preocupe, não vou contar o filme…), ele resolve procurar suas raízes.
Já tinha gostado do livro “O xará” (se possível, procure, da mesma autora “Intérprete de males”, também da Companhia das Letras) e fiquei emocionado com o filme – “Nome de família”. E foi uma emoção genuína, desprendida da carga que um ator ou uma atriz muito conhecido(a) pode agregar, uma vez que ninguém do elenco sequer passou perto de Hollywood (a diretora sim: depois do sucesso inesperado com o independente “Casamento indiano” – numa locadora perto de você -, ela foi convidada para dirigir uma adaptação do clássico de William Thackeray , “Vanity fair”, com Reese Whiterspoon – também numa locadora perto de você -, que não deu muito certo… mas mesmo assim, eu adorei!).
Esse elenco “desconhecido” (as aspas são importantes, uma vez que o site imdb.com lista 67 filmes – nenhum americano – no currículo da atriz principal, a indiana Tabu) só contribui, claro, para nosso envolvimento com a história. E foi justamente isso, esse envolvimento, que me fez pensar no dilema de ver ou não ver “Piratas do Caribe 3″.
Não descrevi as cenas principais do trailer desse filme lá no início à toa. A sensação que tive, depois de ver os trailers repetidas vezes, era de que o filme realmente se resumia àquelas cenas. Fora o show de imagens dos efeitos especiais, os ângulos impossíveis de algumas tomadas (me esqueci de mencionar, mas aquele ataque de um navio para o outro onde um exército de piratas “voa” sobre os mares é maravilhoso) e – vá lá – o charme das estrelas principais, o que eu vou levar desse filme? Não, não vou querer meu dinheiro de volta: duas horas e quarenta e oito minutos com os olhos grudados na tela cobrem muito bem o preço do ingresso. Mas depois que eu sair do cinema… o que vai comigo?
A diferença de “Nome de família” – e tantos outros títulos que não contam com os apelos e os truques de uma superprodução para agradar – é que eles tiram de você um real interesse por aqueles personagens ali mostrados. O filme acaba e você, surpreendentemente, se vê preocupado com o que vai ser de Gogol depois que os créditos finais passarem. Que mistérios a mãe dele deixou de revelar? Como o segredo que o pai de Gogol repercutiu quando ele, Gogol, foi pai? Dava para saber um pouco mais sobre a irmã? De inúmeras maneiras, você continua a elaborar as histórias daqueles personagens como se fossem pessoas que você conhecesse. E Jack Sparrow? Confesse: você está mais interessado em saber se Johnny Depp vai assinar contrato para mais um filme da série do que especular sobre os próximos inimigos que o capitão pode eventualmente enfrentar.
O que filmes como “Nome de família” fazem com a gente é oferecer a chave da elaboração, prolongar o exercício da imaginação – e, arrisco, essa é a verdadeira fantasia. Todas as peripécias de “Piratas” são pura aventura – mas funcionam apenas como fantasias instantâneas. Não duram nem até a primeira pizza chegar à mesa do seu jantar de domingo, que você combinou com os amigos logo depois do cinema. Mas quem disse que os personagens de “Nome de família” vão embora?
O filme tem muitas outras qualidades. Por exemplo, seria natural para alguém que filmou um casamento (indiano) com tanta beleza, oferecesse dessa vez um funeral com extrema reverência e poesia. A interpretação de Tabu é tão sofisticada que ela mal precisa de maquiagem para mostrar que quase trinta anos se passaram da primeira à última cena. O próprio Gogol (vivido por Kal Penn – esse sim, já com experiência de Hollywood, e participação até na última temporada de “24″) é representado com a dose certa de fragilidade e incerteza que o personagem pede. Mas sobretudo eu recomendaria o mais recente trabalho de Mira Nair como um antídoto para essa temporada de arrepios fáceis na tela.
Ah! E a resposta à pergunta inicial? Vamos assistir “Piratas do Caribe 3″, sim! E “Homem-aranha 3″, sim”! E sobretudo “Sherk 3″ – sim! Mas se der, compra um ingresso para “Nome de família” entre outra sessão e outra – só para experimentar o que é se envolver de verdade com uma história.
Este post foi publicado em Todas, Segunda-feira, (28/05/2007), às 11h34. Deixe seu comentário ou envie o trackback do seu site no formulário abaixo. Você pode acompanhar as atualizações deste post através do feed RSS do blog.
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